





Grupo Capoeira Mandingueira

Mestre Bimba
A história do Mestre Bimba
No dia 23 de novembro de 1900 (ou 1899, possuía dois documentos com datas diferentes) nasceu Manoel dos Reis Machado, o Mestre Bimba no bairro de Engenho Velho, freguesia de Brotas, em Salvador. Ele ganhou seu apelido Bimba logo que nasceu, através de uma aposta feita entre a sua mãe e a parteira. Sua mãe, dona Maria Martinha do Bomfim, dizia que ela daria luz a uma menina. A parteira afirmava que seria menino. Apostaram e Dona Maria Martinha perdeu. O Manoel, recém-nascido, ganhou o apelido que o acompanharia para o resto da vida. Na Bahia, Bimba é um nome popular do órgão sexual masculino em crianças.
Seu pai, Luiz Cândido Machado, já era citado nas festas de largo como grande batuqueiro, como campeão de batuque, a luta braba, com quedas , com a qual o sujeito jogava o outro no chão.
Aos 12 anos de idade, Bimba, o caçula de dona Martinha, iniciou-se na capoeira, na Estrada das Boiadas, hoje bairro da Liberdade, em Salvador. Seu Mestre foi o africano Bentinho, capitão da companhia de navegação baiana. Nesse tempo, a capoeira ainda era bastante perseguida e Bimba contava: "Naquele tempo capoeira era coisa para carroceiro, trapicheiro, estivador e malandros. Eu era estivador, mas fui um pouco de tudo. A polícia perseguia um capoeirista como se persegue um cão danado." Imagine só, que um dos castigos que davam a capoeiristas que fossem presos brigando, era amarrar um dos punhos num rabo de cavalo e outro em um cavalo paralelo. Os dois cavalos eram soltos e postos a correr em dispararada até o quartel. Comentavam até, por brincadeira, que era melhor brigar perto do quartel, pois houve muitos casos de morte. O indivíduo não aguentava ser arrastado em velocidade pelo chão e morria antes de chegar ao seu destino, o quartel da polícia.
A esta altura, Bimba começou a sentir a capoeira Angola, que ele praticava e ensinou por um bom tempo, tinha se modificado, degenerou-se e passou a servir de "prato de dia para pseudo-capoeiristas", que a utilizavam unicamente para exibições em praça e, por possuir um número reduzido de golpes, deixava muito a desejar em termos de luta. Aproveitou-se então do "Batuque" e da "Angola" e criou o que chamou de "Capoeira Regional", uma luta baiana. Possuidor de grande inteligência, eximio praticante da "Capoeira Angola" e muito íntimo dos golpes de Batuque, intimidade esta adquirida com seu pai, um mestre nesse esporte, foi fácil para Bimba, com seu gênio criativo, "descobrir a regional".
Criada a Regional, Bimba deu, talvez, a sua maior contribuição à capoeira: criou um método de ensino para esta, coisa que até então não existia. "O capoeirista aprendia oitava" dizia o mestre. O que caracteriza a capoeira Regional, é a sua "sequência de ensino": esta sequência é uma série de exercícios físicos completos e organizados em um número de lições práticas e eficientes, a fim de que o principante em capoeira, dentro do menor espaço e tempo possível, se convença do valor da luta, como sistema de ataque e defesa. A sequência é para o capoeirista o seu abc. Ela veio contribuir de maneira definitiva para o aprendizado da capoeira.
Já bastante familiarizado com seu método, com a sua regional, Bimba passou à parte mais importante, que consistia em testar a sua capoeira em "Rodas" estranhas. E não deu outra coisa. Bimba chegava, entrava na roda e aos "galopantes", "vingativas", "Bandas trançadas", etc., colocava em polvorosa os capoeiristas angola. A coisa chegou a tal ponto, que quando ele chegava em uma roda com seus amigos e alunas da Regional, a roda simplesmente acabava por motivos óbvios. Ningém queria jogar com Bimba, contra a sua Capoeira Regional, que passou a dar fama ao seu criador e a tornou conhecida.

O mestre, sentindo que certos Angoleiros enciumados tentavam marginalizá-lo, resolveu fechar a sua Regional. Não mais se apresentava em festas de largo o mesmo acontecendo com seus alunos. Bimba contava, que não tinha nada contra os verdadeiros angoleiros como "Totonho de Maré", "Traíra", "Cosme", "Daniel Noronha", "Cabo" e outros que continuaram seus amigos, porém os falsos angoleiros, aproveitadores de situações, e fracos em capoeira ele não perdoava. Dizia sempre que os que mais malharam a sua regional, não tiveram coragem suficiente para enfrentá-lo, ou testarem seu método, de testarem a sua luta.
Resolveu então abrir uma escola de capoeira na roça do Lôbo, rua Bananal número 4, Tororó, em seguida no terreiro de Jesus, rua do Maciel número 1, terreo passando depois de alguns anos para o primeiro andar. "A academia de Mestre Bimba que além de ser a primeira chamada Regional, uma vez que seu mestre foi o criador dessa modalidade de capoeira, é a mais importante das academias no gênero, além de ser a matriz que originou as demais existentes no presente."
Porém a capoeira ainda era praticamente ilegal. Bimba conseguiu alguns "tostões tirados em vaquinha" para pagar ao delegado e poder ensinar a sua capoeira por uma hora apenas, no fim desse prazo o delegado aparecia com seus soldados e o pessoal "se mandava", corria mesmo para tudo parecer real para o povo que assistia.
Foi então que o Mestre Bimba com seus alunos fizeram uma apresentação em homenagem ao deputado Simões Filho, fundador do jornal "A tarde". O povo passou assim a tomar conhecimento do que era a capoeira do mestre. Em 1934, no dia 3 de dezembro, no festival beneficente da casa dos mendigos, Bimba prestava nova homenagem realizando uma exibição no Estádio de Brotas, o povo vibrou quando Bimba desferiu um "rabo de arraia" em Geraldo torando-o de combate, como noticiou "A tarde".
O Mestre conta que certo dia, na década de 30, apareceu em sua academia um funcionário do governo e entregou-lhe um ofício, convidando-o a comparecer ao Palácio. Pensou que seria preso, pois a Capoeira ainda era considerada coisa de pessoas da classe baixa, de marginais. Disse então, aos alunos, que se não voltasse continuassem lutando pela capoeira, e olhassem por sua família. Ao chegar ao Palácio, tamanho foi sua surpresa, o governador Juracy Magalhães, queria apenas que Bimba e seus alunos se exibissem no Palácio para seus convidados. O mestre foi e deu seu "recado", sendo bastante aplaudido no final, e deixando assim a capoeira de ser mal vista pela polícia e o povo.
Em 1936 Bimba desafia qualquer lutador, de qualquer luta, para enfrentá-lo com a sua regional. Foram realizados quatro lutas e os adversários foram Vítor Benedito Lopes, Henrique Bahia, José Custódio dos Santos e Américo Ciência. A luta que durou mais tempo, marcou um minuto e dez segundos, confirmando o apelido que Bimba possuía em seu bairro "3 pancadas" , que era o máximo que os adversários aguentavam. Bimba venceu todos e sagra-se campeão. Na ocasião lhe prometeram um "cintuão de ouro". Conta o Dr. Ângelo Decanio, ex-aluno, que certo dia o mestre lhe pediu um cinto do Exercito e com ele confeccionou um cinturão de campeão com tachas de sapateiro, e o pendurou na sala da sua casa. Dizia "me prometeram um cinturão, não me deram, resolvi fazer um!"
Essas lutas foram realizadas na Inaguração do Parque Odeon na praça da Sé. No dia 7 de fevereiro de 1936 o diário de notícias publicava: "O esporte nacional no Stadium Odeon, o capoeirista Bimba venceu brilhantemente seu forte adversário Henrique Bahia". Já o Estado da Bahia publicava: "O Bimba é bamba" e passa a transcrever a luta, afirmando que o "Mestre Bimba projetou seu adversário com um pontapé no peito". Certo dia apareceu em sua academia, em dia de "Formatura" um capoeirista que o desafiou. Os alunos queriam "pegar" logo o desafeto ao que Bimba falou: "Deixem o rapaz, no fim da festa acerto as contas com ele". No fim da formatura o Mestre chamou o desafiante para o pé do berimbau, para jogarem a capoeira. Assim que o capoeirista saiu de aú o Mestre acertou-lhe uma violenta "Benção" no rosto partindo lhe os lábios e o nariz. O desafiante indagou: "O que é isso Mestre?" E o Mestre alto, firma, seco e ironico: "É pé meu filho!". Nunca mais apareceu ninguém para desafiá-lo e a sua Capoeira Regional.
Em 1937, depois que a Capoeira saiu do Codigo Penal, Mestre Bimba conseguiu registrar a sua escola de Capoeira na Secretaria de Educação, Saúde e Assistência Pública. O processo do registro leva o numero 305/1937/AP/NCL, assinado pelo Dr. Clemente Guimarães, inspetor técnico do ensino secundário profissional, tendo em vista o que requereu o Sr. Manoel dos Reis Machado, diretor do curso de Educação Física, sítio a rua Bananal, 4 (Tororó), distrito de Sant'Anna, município da capital, concede-lhe para o seu estabelecimento o presente título de registro, a fim de produzir os devidos efeitos.

Em 23 de julho de 1953, quando fez uma apresentação no palácio , para então o presidente Getúlio Vargas, ouviu o seguinte: "A capoeira é o único esporte verdadeiramente nacional". O Mestre Bimba tornou-se assim o primeiro capoeirista a ser recebido em um palácio, pelo presidente, e a exibir-se para os convidados do governo.
Em 1971 foi a São Paulo a convite de Airton Moura (onça), para ser homenageado pelos capoeiristas paulistas e receber o título de presidente de honra da Associação K-poeira.
Ainda em 1971 recebeu convite para ir a Goiânia realizar um exame de alunos de Oswaldo Souza. Foi e ficou empolgado com o tratamento recebido do povo e das autoridades locais.
Mais tarde, ao receber um telegrama convidando-o para uma apresentação em Goiânia, o Mestre vibrou. Eis o que dizia o texto:
"Urgente Mestre Bimba rua Francisco Muniz Barreto número 1 Salvador BA.
Favor informar urgente possibilidade apresentação completa Goiânia dias quatro cinco seis junho próximo mediante cobertura passagem ônibus ida e volta mais gratificação dois mil cruzeiros confirme para a Academia Regional de Capoeira prof. Oswaldo Souza Rua Seis Nr 211 segundo andar Goiânia-GO. 7 de maio de 1971
O Mestre foi e apresentou-se na Expo-Goiás 71. Na sua volta falou muito de como tinha sido tratado pelo povo de Goiânia, pelo prefeito e pelo governador que inclusive o recebeu no Palácio. Era a terceira vez em sua vida que tal fato acontecia, e tocou profundamente o Mestre. Mais empolgado ficou quando soube que o presidente Médici o tinha assistido e gostado muito. Convites para ensinar a sua capoeira em Goiânia não faltaram. Promessas também não, disseram que teria uma escola só para ele já com vários alunos matriculados, que em colégios bons, que ele, o Mestre, seria professor de Educação Física e capoeira na Universidade Federal de Goiânia. Bimba estava empolgado, o apoio que lhe sempre faltou na Bahia, o reconhecimento que sempre esperou para sua arte, parecia ter chegado com este convite. O professor Oswaldo chegou a Salvador e ultimou os detalhes da ida de Bimba para Goiânia. Na época assisti o Oswaldo dizer ao Mestre que já tinha comprado as casas para sua família e que as mesmas já estavam mobiliadas, que tinha, inclusive, vendido o seu carro para cobrir as despesas. Tudo um verdadeiro “papo furado”! Quando chegou, Oswaldo aproveitou para tomar algumas aulas de capoeira com o Mestre, pois a que ensinava em Goiânia era altamente deficiente como nós alunos e o Mestre notamos. O Mestre começou a vender todos seus bens, casas no Nordeste de Amaralina e no Alto de Santa Cruz (quatro ao todo), a sua academia do Nordeste por apenas C$ 18.000, pagáveis em prestações mensais de 500,00 das quais, segundo Demerval, seu filho, só recebeu três. A Bahia estava prestes a perder a sua maior expressão folclórica e nada fazia! Bimba, o Mestre, estava indo embora...
Antes de ir para Goiânia, Bimba formou na Bahia sua última turma de capoeiristas. A formatura foi muito “badalada” pela imprensa, chamavam-na “a formatura do adeus”, e foi realizada em Mataripe a pedido um aluno formado, o Vermelho, que inclusive comprou o “posse” da Academia por Cr$ 5.000, pagáveis em parcelas. Nesta formatura todos viram que o Mestre não estava como costume, sua alegria tão espontânea nestes dias não se fazia presente, Bimba tentava esconder a tristeza, disfarçá-la em brincadeiras com seus alunos, mas não conseguia, a tristeza estava estampada em seus olhos, parecia que estava faltando alguma coisa. Para o Mestre aquilo não era uma formatura, porém uma festa de adeus. Houve até quem dissesse que naquele dia o Mestre chorou. O orador desta formatura foi o Vermelho e os paraninfos (nesta foram dois a pedido do Mestre) Itapoan e Carneiro. O jogo entre paraninfo e o orador foi com Itapoan e Vermelho.

No dia 23 de outubro de 1972, apresentou-se na faculdade de Arquitetura de Salvador, durante a semana de cultura popular, despedindo-se assim dos universitários baianos que sempre o apoiaram. Nesta oportunidade um orador ia apresentar o Mestre e fazer algumas perguntas para ele. Pedimos então aos organizadores que deixassem o Mestre à vontade, que o soltassem no palco que ele encarregaria do show. O Mestre assumiu e foi aquele espetáculo. A plateia vibrava com suas histórias e começou aplaudi-lo de pé. Se despediu assim dos universitários em grande estilo! Naquele dia, diante de uma plateia exigente e inteligente, o Mestre mostrou o que é aprender com a vida, mostrou porque era aquele líder, aquela figura que os alunos obedeciam sem pestanejar. Mostrou porque era o capoeirista mais respeitado deste país.
Depois, Bimba foi embora, deixou a Bahia que tanto amou, mas, onde “os poderes públicos nunca me ajudaram...” Foi para Goiânia, para o seu “Eldorado”. E como se enganou!...
O filho do Mestre, Manoel, disse que chegando em Goiânia, Oswaldo tentou passar o Mestre para trás em shows e nas aulas, tendo assim o Mestre rompido a amizade, ficando entregue a própria sorte. Dona Alice disse que assim que o Mestre morreu ela tratou de vir para Salvador, pois de falsidades ela já andava cheia! A verdade é que Bimba não estava bem em Goiânia. De início, começou dando aulas de capoeira com um ex-aluno (Oswaldo de Souza), a quem ele acha que não devia ter dado diploma antes do tempo.
Este aluno veio busca-lo na Bahia com um bocado de promessas, que não foram cumpridas. “Aquilo é um lobo. Eu lhe dei o diploma porque havia me prometido que quando eu viesse para cá continuaria praticando comigo. Me prometeu duas casas completas. E o que é casa completa? É toda mobiliada né não? Teve dia em que eu com tanta gente para tratar, falava com ele lá no Jóquei e tinha a coragem de me dar dez cruzeiros”. “Meus filhos me diziam antes de vir: lá mainha vai poder ver televisão. Mas o lobo me enganou!”
Em Goiânia o Mestre, apesar das dificuldades, deixou um grande número de praticantes da capoeira. Muito querido por seus alunos, ele ensinou na academia de Oswaldo Souza (com o qual se desentendeu, chegando, segundo seu filho Dermerval, a expulsá-lo de sua casa e tentado agredi-lo só não fazendo-o por interferência de terceiros e covardia de Oswaldo. A briga, diz Dermerval, foi por causa de uma apresentação, pois o Oswaldo acertou o show por um preço e disse ao Mestre que era outro. Um aluno, sabendo disso, entregou o Oswaldo ao Mestre e confirmou em sua presença), ensinou também no Jóquei Clube (cobrando Cr$ 10,00 por aluno), no D C E, na Escola Superior de Educação Física e finalmente na academia de Hugo Nakamura , que vendo as dificuldades por que passava o Mestre Bimba ofereceu uma sala, grátis, para o Mestre ensinar a sua Capoeira Regional.

Depois que se foi, Bimba veio a Salvador apenas duas vezes, apresentando como motivos “tratar de negócios”, vender uma casa que restava e receber uma das parcelas da venda da posse da Academia. Na realidade Bimba sentiu saudades de sua terra, de seus alunos, do seu Esporte Clube Ipiranga, do mar, e aproveitou a “deixa” para matar a saudade, e desta vez sim, despedir-se da sua Bahia, da sua terra. Encontrei-o na estação rodoviária no dia em que ia voltar para Goiânia. Conversamos muito, eu, ele e o Alegria (aluno formado) além de dona Nair, sua outra mulheAr e seu filho Dermerval.
Ele falou que estava muito bem em Goiânia, ensinando e apresentando sempre. Já dona Nair nos disse “Bimba foi enganado, não volta porque é muito orgulhoso”. Sentimos que realmente o Mestre não estava bem em Goiânia, pois o Alegria o encontrou, aqui em Salvador, em um ponto de ônibus, coisa que não fazia a vários anos, andando somente de táxi. Para mim, contou que veio para Salvador com apenas Cr$ 200 no bolso e que pediu dinheiro emprestado para voltar.
Em 5 de fevereiro de 1974, um ano depois que deixou a Bahia, morria o Mestre Bimba. No sábado pela manhã Bimba se encontrava meio adoentado, mas aceitou fazer uma demonstração a tarde no clube dos funcionários públicos de Goiás, por 2.500 mostrando, como sempre fez, toda a sua arte de capoeirista baiano, toda arte de ser o maior capoeirista do Brasil, o “papa da Capoeira”, homem que estava na agenda de qualquer turista que visitasse Salvador, atração turística só comparada, na Bahia, a Igreja do Bomfim e às suas praias. Logo após o espetáculo sentiu-se mal e foi levado para casa. No domingo foi levado para o hospital São Jorge com derrame cerebral, como não tinha cartão do INPS e dinheiro, foi removido para o hospital das clínicas da universidade de Goiás onde veio falecer. Morreu o Manoel dos Reis Machado, morreu o famoso Mestre Bimba. A maior figura que a capoeira já produziu. O homem que se vestia e mulher para “jogar cartas, bater na polícia e não ser reconhecido”, o homem que depois de uma briga qualquer era procurado pelas “forças” e “passava as noites em cima de uma jaqueira todo amarrado em um galho para não cair durante o sono”, o homem que levou a capoeira de “status”, que a tirou “de baixo de pé do boi” como gostava de dizer, que a introduziu nos meios universitários, que foi filmado por turistas do mundo inteiro, que foi citado nas Enciclopédias Delta Larousse e do Estudante, que recebia cartas de Érico Veríssimo e Monteiro Lobato elogiando a sua arte e incentivando-o a continuar o seu trabalho.
O homem que teve uns vinte filhos baianos e que quase todos seguiram o pai nos passos da capoeira. Está morto o Mestre Bimba. “O Banzo” (doença da saudade) o matou, seu corpo foi sepultado no cemitério Parque de Goiânia. Está morto o homem que além de ser o maior capoeirista da Bahia, era também órgão do candomblé de Dr. Alice (sua mulher) no Alto da Santa Cruz: era o capoeirista procurando proteção junto aos Orixás, sendo protegido pelo seu santo, o Deus da guerra, o poderoso Xangô. No seu enterro o seu aluno Jaci Fernandes Sobrinho tocou o berimbau preferido do Mestre e o colocou junto ao seu corpo, seus filhos Dermerval (16 anos) e Manoel (13 anos) jogaram capoeira pela última vez na frente do pai.
Bimba está enterrado em Goiânia, pois quando saiu da Bahia disse: “Não voltarei mais, aqui nunca fui lembrado pelos poderes políticos, se não gozar de nada em Goiânia vou gozar do seu cemitério”. Era o golpe do Mestre aplicado à Bahia, por um de seus filhos mais ilustres. Na Bahia as escolas de capoeira e modalidades fecharam suas portas por sete dias em homenagem àquele homem que era querido por muitos, odiado por poucos, mas respeitado por todos.
Em Salvador, Bimba teve seu nome lembrado depois de morto apenas por seus alunos mais chegados que lhe prestaram homenagens como a do Instituto Brasileiro de Estudos de Capoeira. IBEC, fundado por ex-alunos seus que lhe conferiram o título de “Patrono”, o prefeito, a pedido dos seus ex-alunos, baixou um decreto mudando o nome da Rua Nordeste, em Amaralina, para Mestre Bimba. E a homenagem que lhe prestou o Shopping Center Iguatemi que no dia 27/01/78 colocou uma placa com seu nome em uma das alamedas do shopping. Outra homenagem foi a que lhes fizeram os universitários baianos através do “Grupo folclórico Ganga-Zumba” da FUB, que durante os jogos universitários brasileiros em Vitória-ES, em julho de 1974 se apresentou para os universitários presentes e a população de Vitória com o espetáculo em sua homenagem. O programa do show dizia “Este espetáculo é uma homenagem “post-mortem” a Manoel dos Reis Machado, nosso Mestre, a maior expressão da capoeira e uma das maiores figuras folclóricas do Brasil.
O METODO DE ENSINO DO MESTRÃO
Uma diferença fundamental entre o Mestre Bimba e os outros capoeiristas de sua época, é que estudou a capoeira, criou um método de ensino para ela. Foi em soma, além de grande capoeirista, um pesquisador que com meios simples chegou a um método de ensino que desafia os tempos resistindo até hoje, já que os novos métodos não passavam de pequenas e muitas vezes mal feitas, variações do seu.
Seu método de ensino consistia inicialmente de um exame: para entrar na Academia, logo que começou a ensinar, Bimba exigia que o candidato a capoeirista resistisse por três minutos a uma “gravata” sua aplicada ao pescoço do mesmo: “Pra ver se o cabra era homem”. Se o candidato aguentasse, sem “chiar”, estaria aprovado.

Caso contrário iria aprender em outro lugar... Com o passar dos tempos, Bimba mudou o exame de admissão à Academia: agora o candidato para matricular-se como aluno do “Centro de Cultura Física e Regional”, assim se chamava a sua escola, tinha que conseguir fazer a “cocorinha”, a “queda de rins” e o “deslocamento” (ponte) auxiliado pelo Mestre. “Mostra-me tua junta que te direi quem és, pois, junta de mais ou de menos atrapalha”.
No segundo dia, o Mestre segurava o aluno pela mão e ensina-lhe a gingar. Dizia que a ginga é fundamental para a capoeira: “Não existe capoeira sem ginga”.
Em seguido, o aluno aprendia a Oitava, as oito famosas sequências de movimentos básicos, com ataque, defesa e contra ataque.
Estas são as sequências de Bimba:
Primeira Sequência:
Meia lua de frente Corcorinha
Meia lua de frente com armada Corcorinha com negativa
Aú Cabeçada
Rolê
Segunda Sequência:
Queixada Corcorinha
Queixada Corcorinha
Corcorinha Armada
Benção Negativa
Aú Cabeçada
Rolê
Terceira Sequência:
Martelo Banda
Martelo Banda
Corcorinha Armada
Benção Negativa
Aú Cabeçada
Rolê
Quarta Sequência:
Godeme Bloqueio
Godeme Bloqueio
Arrastão Galopante
Aú Negativa
Rolê Cabeçada
Quinta Sequência:
Giro Cabeçada
Joelhada Negativa
Negativa
Aú Cabeçada
Rolê
Sexta Sequência:
Meia lua de compasso Corcorinha
Corcorinha Meia lua de compasso
Joelhada Negativa
Aú Cabeçada
Rolê
Sétima Sequência:
Armada Corcorinha
Armada Corcorinha
Negativa Benção
Cabeçada Aú
Rolê
Oitava Sequência:
Benção Negativa
Aú Cabeçada
Rolê
Na Academia de Mestre Bimba havia várias regras. Por exemplo, só foram aceitados alunos que trabalhavam ou estudavam, para melhorar a imagem do Capoeirista na época.
Outras regras eram:
-gingar sempre
-esquivar sempre
-a queda é uma consequência do jogo
-não fazer movimentos sem um objetivo
-respeite seu adversário quando está indefeso
-sempre manter uma base no chão
-nunca mostrar tudo que sabe, pois a surpresa é a arma mais poderosa do Capoeirista
-treinar as bases todos os dias
-manter o corpo relaxado e mais próximo do adversário possível
-o berimbau é o Mestre do jogo, respeitar o Berimbau
-respeitar o camarada
e para o dia a dia:
-não fumar
-não beber
-ter boas notas na escola
-sempre atento
-dobrar a esquina sempre andando no lado da rua, não da parede, para ver o que tem atrás
As aulas de Mestre Bimba eram realizadas sem música. O aluno só jogava com música no seu batizado, depois de no mínimo três meses de treino na Academia, ao som de um berimbau e dois pandeiros. O Mestre escolhia um padrinho formado para cada aluno, que jogava com este até jogar no chão e lhe dava o apelido de Capoeira. Todos os alunos de Mestre Bimba passavam por este ritual e até hoje muitos grupos de Capoeira usam elementos desta tradição.
Depois de no mínimo seis meses, o aluno podia passar para o próximo grau, o Formado. O Mestre escolhia os alunos para fazer exames, que eram realizados em quatro domingos seguintes. Eram testados força, reflexo e flexibilidade. No último domingo, Mestre Bimba anunciava quem foi aprovado e determinava a data da Formatura. Antes dessa data, ainda ensinava novos movimentos para os alunos.
A Festa da Formatura começava com uma roda dos Formados mais velhos, para mostrar ao público a Capoeira bonita. Depois, o Mestre escolhia um Formado para contar uma breve história da Capoeira, do Mestre e da Regional e o Mestre entregava medalhas e lenços de seda azuis para os recém-formados. As medalhas eram colocadas no lado esquerdo do peito e as madrinhas amarravam os lenços no pescoço dos Formados. Ao pedido do Mestre, os Formados mostravam as movimentos e jogavam entre eles em diferentes rítmos e no final da festa tiveram que defender a sua medalha contra um Formado mais velho, que tentava tira-la do seu peito.
Depois da Formatura só restavam mais duas graduaçoes para o Formado. Uma era o curso de especialização, com duração de três meses, seguindo o modelo de um curso universitário. Dois meses do curso eram realizados na Academia, o terceiro na mata. O Mestre ensinava técnicas de guerilla e defesa em situações difíceis, em que o Capoeirista tinha que se defender de quatro ou mais adversários, defesa contra armas e outras técnicas. Esta parte era inspirada nas histórias sobre os quilombos e senzalas e as lutas pela liberdade. No final do curso havia uma festa, em qual o Formado recebia um lenço vermelho, sinal de um Formado com graduação avançada.
O segundo curso era sobre a defesa de vários tipo de armas. Quem passava por este curso com sucesso, recebia o lenço amarelo.
Depois ainda havia cursos de música e instrumentos, mas sem outras graduações.
A ideia dos lenços vem da época, em que Capoeiristas e outros usavam navalhas nas brigas. Como seda desvia a navalha, os lenços eram usados para se defender contra a navalha.
O BERIMBAU DE MESTRE BIMBA
Fazer um berimbau era uma arte que Bimba desenvolvia com todo carinho. Para ele era muito fácil, pois era carpinteiro, “carpina” como gostava de dizer. Dizia que a madeira tinha que ser “Biriba”, cortava, descascava e deixava secar atrás da porta por alguns dias. Retirava o arame de aço dos pneus velhos. “Sem queimar”, dizia sempre que este arame é o melhor que existe, melhor que os comprados na loja. A cabaça era aberta com uma faca bem amolada, em seguida ele retirava as sementes e lixava a cabaça com lixa bem fina. Só então, depois desses cuidados, o Mestre começava a montar o seu berimbau. Não um instrumento para enfeitar apartamentos de turistas, porém e sim para tocar, para se tirar um som incrível! A verga (assim ele chamava a madeira) era então encerada com cera especial (feita com o pó que sobrava da raspagem da cabaça e cola), depois era toda envernizada, a cabaça da mesma forma. O Mestre não admitia berimbau pintado: ”perde a voz”. Verdade ou não, os berimbaus feitos por ele tinham um som sensacional e eram disputadíssimos por todos os alunos. E como ele dominava aquele instrumento! Tinha aluno que passava horas só ouvindo o Mestre tocar uma “Iúna”, uma “Banguela”, “Amazonas”, “Cavalaria” etc... O cordão que liga a cabaça ao arame e o que amarra o arame na madeira, tinha que ser encerado com cera de abelha.



